Meu perfil
BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Mulher, Livros, Cinema e vídeo

Histórico
Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Meu linked in
SINCOPSE 8:)
Irmaos.com
Dicionário
Flog da Ana
Flog da Mirley
Provocações
Um blog útil... Ou quase isso!
Janela dalma
Purrinhola







O sábio e a montanha

 

O sábio decidiu subir a montanha para meditar sobre a vida, o universo e tudo mais. O sábio, entrou no google para olhar a montanha. O sábio percebeu que não tinha condicionamento físico suficiente para escalar algo tão alto. O sábio fez matrícula em uma academia. Comprou roupa de ginástica, garrafinha térmica de água, tênis com amortecedor. O sábio adquiriu resistência física. Então, o sábio decidiu subir a montanha para meditar sobre a vida, o universo e tudo mais. O sábio conversou com algumas pessoas que faziam trilha. O sábio percebeu que precisava de equipamentos especiais para dormir no meio do caminho até o topo da montanha. O sábio comprou sapato e roupas especiais. O sábio comprou uma mochila reforçada, comidas especiais e isotônicos. O sábio decidiu subir a montanha para meditar sobre a vida, e o universo, mas resolveu fazer um curso de orientação sobre rumos do vento, como suportar bem a altitude e como usar uma bússola. O sábio decidiu comprar um GPS, um celular com GPS e um notebook com conexão GPRS (caso ficasse entediado ou precisasse pagar alguma conta pela internet). O sábio decidiu subir a montanha para meditar sobre a vida. Mas, choveu no dia previsto para a saída. Ele adiou. O sábio decidiu fazer um curso sobre como captar as vibrações vibrantes da montanha. O sábio decidiu mais uma vez subir a montanha e preparou novamente a mochila. Percebeu que ela estava deveras pesada. O sábio contratou um carregador para a sua mochila e aprendeu a falar armênio, língua do carregador. Afinal, o sábio não queria deixar de se comunicar com o funcionário. O sábio decidiu subir a montanha para meditar sobre a vida, mas resolveu começar a escrever um livro sobre como é a experiência montanhosa. Quando regressasse, terminaria o livro e incluiria belíssimas fotos de sua meditação na montanha. O sábio decidiu se transformar num fotógrafo profissional, em prol de seu livro que seria um best-seller, com certeza. O sábio decidiu subir a montanha para meditar. Antes, resolveu ter aulas de alongamento para evitar estiramentos quando estivesse nas posições de meditação. O sábio decidiu subir a montanha. Como sua casa ficaria desabitada, anunciou que estava alugando durante o período da subida. O sábio não gostou dos prováveis inquilinos e vendeu a propriedade. Alugou um flat. O sábio decidiu que não queria decidir mais nada. O sábio não sabia mais o motivo de querer subir a montanha, já que poderia ver em fotos e meditar em casa. O sábio questionou a razão de ser chamado de sábio. E a montanha, bem, a montanha ainda está no mesmo lugar.



 Escrito por Sara 8:) às 4h13 PM
[] [envie esta mensagem] []



Autoajuda* é para os fracos

 

 

“As pessoas de nosso tempo, observou Albert Camus, sofrem por não serem capazes de possuir o mundo de maneira suficientemente completa:

 

Exceto por vívidos momentos de realização, toda realidade para eles é incompleta. Suas ações lhe escapam na forma de outras ações, retornam sob aparências inesperadas para julgá-los e desaparecerem, como a água que Tântalo desejava beber, por algum orifício ainda não descoberto.

 

         Isso é o que cada um de nós sabe por um olhar introspectivo: isso é o que nossas próprias biografias, quando examinadas em retrospecto, nos ensinam sobre o mundo em que vivemos. Mas não quando olhamos ao redor: quanto aos outros que conhecemos, e especialmente pessoas de que sabemos – “vistas à distância, [sua] existência parece ter uma coerência e uma unidade que na verdade não pode ter, mas que parece evidente ao espectador”. Isso é uma ilusão de ótica. A distância (quer dizer, a pobreza de nosso conhecimento) borra os detalhes e apaga tudo o que não se encaixa na Gestalt. Ilusão ou não, tendemos a ver as vidas dos outros como obras de arte. E tendo-as visto assim, lutamos para fazer o mesmo: ‘Todo o mundo tenta fazer de sua vida uma obra de arte’.

         Essa obra de arte que queremos moldar a partir do estofo quebradiço da vida chama-se “identidade”. Quando falamos de identidade há, no fundo de nossas mentes, uma tênue imagem de harmonia, lógica, consistência: todas as coisas que parecem – para nosso desespero eterno – faltar tanto e tão abominavelmente ao fluxo de nossa experiência. A busca da identidade é a busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o fluido, de dar forma ao disforme. Lutamos para negar, ou pelo menos encobrir, a terrível fluidez logo abaixo do fino envoltório da forma; tentamos desviar os olhos de vistas que eles não podem penetrar ou absorver.

 

(...)

As identidades parecem fixas e sólidas apenas quando vistas de relance, de fora. A eventual solidez que podem ter quando contempladas dentro da própria experiência biográfica parece frágil, vulnerável e constantemente dilacerada por forças que expõe sua fluidez e por contracorrentes que ameaçam fazê-la em pedaços e desmanchar qualquer forma que possa ter adquirido.

A identidade experimentada, vivida, só pode se manter unida com o adesivo da fantasia, talvez o sonhar acordado. Mas, dada a teimosa evidência da experiência biográfica, qualquer adesivo mais forte – uma substância com maior poder de fixação que a fantasia fácil de dissolver e limpar – pareceria uma perspectiva tão repugnante quanto a ausência do sonhar acordado.”

 

Trecho do livro A Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman

 

*Aqui diz que a grafia agora é assim.



 Escrito por Sara 8:) às 1h33 PM
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]